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terça-feira, 6 de julho de 2010

Superproteção

O controle exagerado pode destruir o desenvolvimento de uma pessoa

Os pais precisam saber que sua função tem começo e fim. Há um momento em que a responsabilidade pelas escolhas da vida deve cair sobre os ombros dos filhos.

“Minha mãe é como um polvo. Quando consigo cortar um tentáculo, ela me agarra com outro. Não sei quando conseguirei cortar todos. Acho que nunca”. Não haveria problema algum se esta fala fosse de uma criança voluntariosa, que necessitasse da vigilância constante da mãe. Mas, não. O depoimento é de uma jovem de 26 anos, que vou chamar de Estela. Casada, ganhando muito bem e morando em cidade diferente, mesmo assim sentia-se enredada pelo excessivo controle materno. Diariamente, a mãe ligava para saber os detalhes de sua rotina. E, se por algum motivo a filha não atendesse ao telefone, a ligação seguinte era um discurso cheio de criticas e condenação. A moça sentia-se ao mesmo tempo irritada e culpada. Estela queria se livrar daquele controle, mas cada vez que sua mãe percebia que ela queria se desvencilhar, disparava um sermão repetitivo de que “os filhos precisam honrar os pais” e sobre união familiar. E concluía: “Mãe é mãe.”

Claro, o controle exagerado não é só por parte das mães, ou das mulheres. Pode ocorrer com todas as pessoas. Mas é sempre um mal que pode destruir o desenvolvimento de uma criança, de um adolescente ou a liberdade de escolha de qualquer indivíduo. Muitos pais continuam, por toda a vida, controladores de seus filhos, exercendo uma proteção desnecessária sobre eles, simplesmente porque não conseguem viver a própria vida. Dedicaram-se tanto ao papel de pai e mãe que, no momento em que os filhos crescem, não sabem mais o que fazer e continuam querendo tratá-los como se eles permanecessem crianças. É como se tivessem nascido apenas para serem pais. Outros agem assim porque temem que seus filhos façam alguma coisa que venha arranhar a imagem e a reputação dos pais. Muitos acreditam que amam muito os filhos, quando na verdade exercem um controle através da superproteção. E alguns pais, às vezes, até sem perceber, cometem um grande engano – exercem um papel tirânico na vida dos filhos, em nome de Deus, em nome de uma suposta fé zelosa e fervorosa.

O controle dos pais, muitas vezes travestido dessa proteção exagerada, pode se tornar numa tirania poderosa em nome de um apego que sufoca a liberdade dos filhos. É tal a força insana que impede a construção e o desenvolvimento da autonomia dos filhos, bloqueando sua capacidade de escolher e assumir as consequências das próprias escolhas. Comportamento desse tipo bloqueia o desabrochar natural da confiança e do potencial único de cada pessoa. E, em casos mais graves, é possível até ocorrer uma cisão na vida, quando a pessoa passar a viver uma existência fantasiosa, e não a realidade que ela mesma poderia ter construído. A respeito disso, razão tem o músico Herbert Viana, da banda Paralamas do Sucesso, em sua canção Saber amar: “Todas as formas de se controlar alguém só trazem um amor vazio”.

Os pais precisam saber que sua função tem começo e fim. A paternidade inicia-se com a gestação, continua com o nascimento do filho e deve ir terminando gradativamente, à medida em que a criança cresce até se tornar um adulto e, portanto, passa a ser responsável por si mesmo. A idade em que tal processo se conclui muda conforme a cultura, a crença e os costumes de cada sociedade. Mas há um momento em que a responsabilidade pelas escolhas da vida deve sair dos pais e cair sobre os ombros dos filhos. O texto de Lucas 2 conta um episódio ocorrido na vida terrena de Jesus, quando ele tinha doze anos. Na cultura judaica da época, era com aquela idade que o rapaz passava a ser considerado como membro da sinagoga. Jesus tinha se desgarrado dos pais quando estes voltavam para Cafarnaum, após uma cerimônia religiosa em Jerusalém. Maria e José já se haviam afastado bastante da Cidade Santa quando deram pela falta do filho na caravana. Aflitos, retornaram a Jerusalém e encontraram o jovem Jesus no templo, discutindo com os doutores da lei. Ao ser inquirido pela mãe, Jesus lhe respondeu que estava apenas cuidando daquilo que lhe cabia na vida.

A Bíblia nos adverte, em Lamentações 3.27, que é bom para a pessoa começar a desenvolver responsabilidades desde pequeno. A execução de pequenas tarefas e a oportunidade de fazer escolhas simples são etapas que fazem parte desse desenvolvimento. Uma criança de três anos pode escolher a cor de sua lancheira e deve ter a incumbência de carregá-la para escola enquanto caminha com o seu responsável. Já se disse que, se um pai carrega a mala escolar para seu filho, vai fazê-lo para o resto da vida. Como pais, devemos ajudar nossos filhos a crescerem. E, estando eles crescidos, devemos ficar disponíveis para uma possível ajuda – mas sempre deixando-os livres para aprender com seus próprios erros e acertos.

ESTHER CARRENHO
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